setembro 23, 2006

A Guarda, prisão, mas nossa cidade

 


 


A Guarda, prisão, mas nossa cidade


 


A Guarda reservou para si um largo espaço na memória de várias gerações de estudantes oriundos de todo o distrito. Nos sonhos e na saudade conserva ainda intacta a atmosfera que percorreu as adolescências. Sabe sempre bem regressar. Mas convém fazê-lo devagar e a prestações, não vá o diabo afligir-nos com sofridas recordações e obrigar-nos a investigar os resquícios de uma opressão que aniquilou a revolta, amoleceu os mecanismos de reacção e esmagou a vigilância individual.


 


Vale a pena recordar os jovens que se estimavam e os afectos que sobraram desse tempo porque os laços solidários duram uma vida. A cidade que agora nos enternece era prisão onde se resistia à intolerância e à repressão, mas era e perdura como a nossa cidade.


 


Nas esquinas cambaleavam polícias denunciados pelo forte odor a aguardente que os protegia do frio e os acautelava das gripes. Entre o Café Mondego e a Praça Velha os homens tiravam o chapéu, comprado na casa Guedes, à passagem das senhoras, por respeito, mas batiam-lhes em casa, por hábito. Ainda era uso implorar a bênção e lambuzar com ósculos subservientes as mãos dos padres. Só a mendicidade e o pé descalço eram proibidos por decreto.


 


O saneamento estava longe de ser generalizado. O penico não era obsoleto e, junto às casas em frente do Hotel Turismo, por exemplo, ninguém apanhava um embrulho por mais atraente que fosse. Nas repartições os escarradores de porcelana aguardavam a pontaria dos funcionários e do público a aliviar o catarro e a proceder à higiene brônquica.


 


Pela Páscoa da ressurreição os estudantes eram convocados pelo padre Isidro para a desobriga colectiva que tinha lugar na Sé, tal como a eucaristia, com o piedoso activismo de alguns professores.


 


Havia um colégio para rapazes, de padres, e outro para meninas, de freiras, em sítios opostos da cidade, como convinha à moral e aos bons costumes, além de um seminário maior que regurgitava de aspirantes a ministros do culto, oriundos do Fundão onde o seminário menor os iniciava na virtude e no serviço divino. Era frequente vê-los desfilar, aos pares, em intermináveis filas de casulas que esvoaçavam ao vento sobre as alvas, alongando-se pelas ruas que subiam a caminho da Sé ou descendo, no regresso, guardados por sacerdotes de sotaina, em exemplar compostura. À sua passagem paravam os poucos carros da cidade, como se de um desfile militar se tratasse. Julgando-os anjos, as meninas continham os ais, presunção que algumas superaram.


 


No dia 1 de Outubro o reitor abria o ano lectivo no Liceu para mostrar aos alunos Suas Excelências os senhores Governador Civil, Presidente da Câmara, uma Reverência representante de Sua Excelência Reverendíssima o Senhor Bispo da Guarda e demais autoridades religiosas, civis e militares, tendo as aulas início uma semana depois.


 


O padre Melo, professor de Canto Coral, afinava em Novembro o coro que no 1.º de Dezembro havia de cantar o “Lá vamos cantando e rindo... levados, levados sim...”


 


O Zé Vilhena pontuava a leitura do compêndio, que confiava a um aluno seleccionado por turma no início de cada ano, com sons guturais que marcavam a pausa e precediam a ordem de sublinhar. Depois recomeçava o ritual, frequentemente interrompido pela pergunta, quem é a besta que está a falar, e a resposta pronta, quem está a falar sou eu, e a malta a rir, e ele, surdo e desconfiado, a prolongar o pavilhão auditivo com a concha da mão, na inútil tentativa de localizar os sons, anda, burro, lê o que está no livrinho, quem fez o livro sabia mais do que tu e do que eu, e entre a leitura, o sublinhar e a investigação sumária e inconclusiva de quem era a besta, se consumiam os cinquenta minutos de páginas riscadas a lápis no compêndio de um tal Matoso.


 


Ao António Pinto as experiências do laboratório de física saíam frequentemente goradas por mérito próprio ou sabotagem de alunos e, enquanto ele verificava a razão do invariável fracasso, aproveitava-se para lhe consultar a caderneta ou alterar as notas. Foi ele que nos iniciou na ciência da roldana e do motor de explosão.


 


Da D. Ofélia, uma fera em Geografia, recordo a cidade de Chícago, assim mesmo, com acento agudo, esdrúxula na oralidade, como grande cidade dos EUA, acentuação que a pudicícia lhe exigia para evitar alguma cacofonia embaraçosa.


 


O Ramalho, competente, celibatário e corcunda, ensinava Ciências Naturais, dirigia a Mocidade Portuguesa e amava a Pátria, extasiando-se com a inicial do ditador na fivela dos cintos das fardas de lusitos, infantes e cadetes. A sua dedicação ao ensino e competência profissional não evitou que alguns alunos terminassem o secundário convencidos de que as brasas e as cinzas eram carvões minerais, enquanto outros se instalaram na vida sem renegarem que o gesso e o estuque fossem os tipos mais óbvios de calcites.


 


A D. Beatriz Salvador, substancial e assustadora, comandava a Mocidade Portuguesa Feminina e as aulas das meninas.


 


O Pacheco chamava-nos cabecinhas de burro e ameaçava com exercícios de surpresa para determinado dia, surpresa que nunca foi por sempre cumprir a data avançada.


O padre José Maria Cabral ensinava Religião e Moral, a primeira com convicção e a segunda por dever. Esclarecia os alunos sobre os livros que não podiam ler por constarem do índex que a santa madre Igreja viria a actualizar pela última vez em 1961, preciosa informação que acicatou alguns para o precoce convívio com a leitura.


 


O irmão, também Cabral de seu apelido, igualmente padre e professor, ministrava a cadeira de Religião Católica na escola do Magistério Primário, disciplina que, tal como a missa da consagração do curso, a eucaristia e a fotografia de finalistas com o sr. Bispo, não sendo suficientes, eram obrigatórias para a obtenção do diploma. Ambos tinham uma conduta virtuosa mitigada nas deslocações a Salamanca e, dizia-se, nas confissões das freiras no colégio de Nossa Senhora de Lurdes.


 


Já o padre Inácio transferia o cio para o cotovelo que percorria as blusas das alunas a avaliar o despertar da adolescência.


 


O Dr. Ezequiel Mendonça (de sua alcunha Piriscas) enrolava pedaços de uma onça de tabaco em mortalha que lambia para fazer o cigarro que estava sempre a acender depois de o deixar apagar com o pingo que a toda a hora lhe caía das ventas e a cuspir enquanto fazíamos o desenho.


 


E, no vértice de todos, estava o Rabaça, temido reitor, a quem um angioma ocupava uma das faces deixando-lhe a outra para sorrir pela metade e intimidar por inteiro


 


Eis algumas figuras interessantes dum álbum comum a três gerações de estudantes. Ficam apenas os esboços à espera de talento para lhes fazer os retratos.


 


Pior ainda era a Escola do Magistério Primário, onde o presidente distrital da União Nacional era director e a D. Sofia apalpava as pernas das alunas para zelar pelas meias obrigatórias, mesmo durante o estio, admitindo que a razão era exclusiva.


 


 


Que raio de tempos esses onde era vedado conviver com as colegas, a quem no liceu não era permitido falar e na rua não convinha acompanhar pelos impropérios a que se sujeitavam. Nesse tempo havia respeito, grunhem hoje os cavernícolas que nunca foram jovens.


 


Mas foram tempos em que de cada aldeia vinham mulheres com os próprios filhos e outros que o não eram, avençados ao farnel (pagamento em géneros e cem escudos em dinheiro), para prosseguirem os estudos e se fazerem gente em precárias condições de vida. O instinto de sobrevivência encheu de quadros as empresas e a Administração Pública do país, numa luta que honra a região e enobrece a sua gente. Foi assim que muitos fugiram à agricultura, pastorícia, fome e contrabando. A essas mulheres que deixavam as aldeias e os maridos para fazerem dos filhos o que os pais não foram, para lhes darem horizontes novos, que os cuidaram e estremeceram, a essas heroínas esquecidas, à sua abnegação e sacrifício, se deve a vitória da primeira geração de remediados que migrou dos campos enquanto os mais pobres aguardaram a década de 60 para encontrarem a redenção na emigração clandestina rumo à construção civil.


 


Eram assim as décadas de quarenta e de cinquenta do século que foi numa cidade onde o Dr. Alberto Garcia e o Dr. António Júlio, médicos ilustres e cidadãos generosos, o


Tenente Craveiro e o Tenente Pedro Joaquim, o advogado Dr. João Gomes e o sr. Armando, fotógrafo, foram excepções que resistiram ao jugo do clero e à genuflexão perante o regime, exemplos raros de cidadania à custa do bem-estar e da própria liberdade.


 


Havia ainda o sr. Queirós (para nós o Ti Zé Queirós pelo afecto que com ele trocávamos), com uma tasca em frente dos Correios, ouvinte da rádio Moscovo e, mais tarde, também da rádio Argel, muitos anos a acalentar sonhos clandestinos de liberdade, sempre a perguntar-me, quando é que isto cai, por não ter lido o Conde d’Abranhos, e não saber que aquilo não caía por não ser um edifício mas havia de sair com o MFA a servir de benzina, numa madrugada de Abril, nódoa que demorou a desencardir. E soube também de um sapateiro que deixou viúva e três filhos, que foi morrer a casa pouco tempo depois dos tratamentos a que foi sujeito nos calabouços da PIDE. Mas hoje, dessas coisas, já ninguém quer saber.


 


É por isso que, excepção feita à Libânia, afectuosamente celebrada em todas as reuniões de sexagenários para cima e com a primeira geração de fregueses já praticamente extinta, só recordamos os condiscípulos. Mas dela e das primícias que nos levou persiste a ternura de afagos com desconto para estudante e o odor a clandestinidade e permanganato.



 


Publicada no Jornal do Fundão em 02-05-2003

Posted by carlos_esperanca at setembro 23, 2006 01:07 AM
Comments
Comentário









Lembrar-se de mim?