A Guarda reservou para si um largo espaço na memória de várias gerações de estudantes oriundos de todo o distrito. Nos sonhos e na saudade conserva ainda intacta a atmosfera que percorreu as adolescências. Sabe sempre bem regressar. Mas convém fazê-lo devagar e a prestações, não vá o diabo afligir-nos com sofridas recordações e obrigar-nos a investigar os resquícios de uma opressão que aniquilou a revolta, amoleceu os mecanismos de reacção e esmagou a vigilância individual.
Vale a pena recordar os jovens que se estimavam e os afectos que sobraram desse tempo porque os laços solidários duram uma vida. A cidade que agora nos enternece era prisão onde se resistia à intolerância e à repressão, mas era e perdura como a nossa cidade.
Nas esquinas cambaleavam polícias denunciados pelo forte odor a aguardente que os protegia do frio e os acautelava das gripes. Entre o Café Mondego e a Praça Velha os homens tiravam o chapéu, comprado na casa Guedes, à passagem das senhoras, por respeito, mas batiam-lhes em casa, por hábito. Ainda era uso implorar a bênção e lambuzar com ósculos subservientes as mãos dos padres. Só a mendicidade e o pé descalço eram proibidos por decreto.
O saneamento estava longe de ser generalizado. O penico não era obsoleto e, junto às casas
Pela Páscoa da ressurreição os estudantes eram convocados pelo padre Isidro para a desobriga colectiva que tinha lugar na Sé, tal como a eucaristia, com o piedoso activismo de alguns professores.
Havia um colégio para rapazes, de padres, e outro para meninas, de freiras, em sítios opostos da cidade, como convinha à moral e aos bons costumes, além de um seminário maior que regurgitava de aspirantes a ministros do culto, oriundos do Fundão onde o seminário menor os iniciava na virtude e no serviço divino. Era frequente vê-los desfilar, aos pares, em intermináveis filas de casulas que esvoaçavam ao vento sobre as alvas, alongando-se pelas ruas que subiam a caminho da Sé ou descendo, no regresso, guardados por sacerdotes de sotaina, em exemplar compostura. À sua passagem paravam os poucos carros da cidade, como se de um desfile militar se tratasse. Julgando-os anjos, as meninas continham os ais, presunção que algumas superaram.
No dia 1 de Outubro o reitor abria o ano lectivo no Liceu para mostrar aos alunos Suas Excelências os senhores Governador Civil, Presidente da Câmara, uma Reverência representante de Sua Excelência Reverendíssima o Senhor Bispo da Guarda e demais autoridades religiosas, civis e militares, tendo as aulas início uma semana depois.
O padre Melo, professor de Canto Coral, afinava em Novembro o coro que no 1.º de Dezembro havia de cantar o “Lá vamos cantando e rindo... levados, levados sim...”
O Zé Vilhena pontuava a leitura do compêndio, que confiava a um aluno seleccionado por turma no início de cada ano, com sons guturais que marcavam a pausa e precediam a ordem de sublinhar. Depois recomeçava o ritual, frequentemente interrompido pela pergunta, quem é a besta que está a falar, e a resposta pronta, quem está a falar sou eu, e a malta a rir, e ele, surdo e desconfiado, a prolongar o pavilhão auditivo com a concha da mão, na inútil tentativa de localizar os sons, anda, burro, lê o que está no livrinho, quem fez o livro sabia mais do que tu e do que eu, e entre a leitura, o sublinhar e a investigação sumária e inconclusiva de quem era a besta, se consumiam os cinquenta minutos de páginas riscadas a lápis no compêndio de um tal Matoso.
Ao
Da D. Ofélia, uma fera em Geografia, recordo a cidade de Chícago, assim mesmo, com acento agudo, esdrúxula na oralidade, como grande cidade dos EUA, acentuação que a pudicícia lhe exigia para evitar alguma cacofonia embaraçosa.
O Ramalho, competente, celibatário e corcunda, ensinava Ciências Naturais, dirigia a Mocidade Portuguesa e amava a Pátria, extasiando-se com a inicial do ditador na fivela dos cintos das fardas de lusitos, infantes e cadetes. A sua dedicação ao ensino e competência profissional não evitou que alguns alunos terminassem o secundário convencidos de que as brasas e as cinzas eram carvões minerais, enquanto outros se instalaram na vida sem renegarem que o gesso e o estuque fossem os tipos mais óbvios de calcites.
A D. Beatriz Salvador, substancial e assustadora, comandava a Mocidade Portuguesa Feminina e as aulas das meninas.
O Pacheco chamava-nos cabecinhas de burro e ameaçava com exercícios de surpresa para determinado dia, surpresa que nunca foi por sempre cumprir a data avançada.
O padre José Maria Cabral ensinava Religião e Moral, a primeira com convicção e a segunda por dever. Esclarecia os alunos sobre os livros que não podiam ler por constarem do índex que a santa madre Igreja viria a actualizar pela última vez em 1961, preciosa informação que acicatou alguns para o precoce convívio com a leitura.
O irmão, também Cabral de seu apelido, igualmente padre e professor, ministrava a cadeira de Religião Católica na escola do Magistério Primário, disciplina que, tal como a missa da consagração do curso, a eucaristia e a fotografia de finalistas com o sr. Bispo, não sendo suficientes, eram obrigatórias para a obtenção do diploma. Ambos tinham uma conduta virtuosa mitigada nas deslocações a Salamanca e, dizia-se, nas confissões das freiras no colégio de Nossa Senhora de Lurdes.
Já o padre Inácio transferia o cio para o cotovelo que percorria as blusas das alunas a avaliar o despertar da adolescência.
O Dr. Ezequiel Mendonça (de sua alcunha Piriscas) enrolava pedaços de uma onça de tabaco em mortalha que lambia para fazer o cigarro que estava sempre a acender depois de o deixar apagar com o pingo que a toda a hora lhe caía das ventas e a cuspir enquanto fazíamos o desenho.
E, no vértice de todos, estava o Rabaça, temido reitor, a quem um angioma ocupava uma das faces deixando-lhe a outra para sorrir pela metade e intimidar por inteiro
Eis algumas figuras interessantes dum álbum comum a três gerações de estudantes. Ficam apenas os esboços à espera de talento para lhes fazer os retratos.
Pior ainda era a Escola do Magistério Primário, onde o presidente distrital da União Nacional era director e a D. Sofia apalpava as pernas das alunas para zelar pelas meias obrigatórias, mesmo durante o estio, admitindo que a razão era exclusiva.
Que raio de tempos esses onde era vedado conviver com as colegas, a quem no liceu não era permitido falar e na rua não convinha acompanhar pelos impropérios a que se sujeitavam. Nesse tempo havia respeito, grunhem hoje os cavernícolas que nunca foram jovens.
Mas foram tempos em que de cada aldeia vinham mulheres com os próprios filhos e outros que o não eram, avençados ao farnel (pagamento em géneros e cem escudos em dinheiro), para prosseguirem os estudos e se fazerem gente em precárias condições de vida. O instinto de sobrevivência encheu de quadros as empresas e a Administração Pública do país, numa luta que honra a região e enobrece a sua gente. Foi assim que muitos fugiram à agricultura, pastorícia, fome e contrabando. A essas mulheres que deixavam as aldeias e os maridos para fazerem dos filhos o que os pais não foram, para lhes darem horizontes novos, que os cuidaram e estremeceram, a essas heroínas esquecidas, à sua abnegação e sacrifício, se deve a vitória da primeira geração de remediados que migrou dos campos enquanto os mais pobres aguardaram a década de 60 para encontrarem a redenção na emigração clandestina rumo à construção civil.
Eram assim as décadas de quarenta e de cinquenta do século que foi numa cidade onde o Dr. Alberto Garcia e o Dr. António Júlio, médicos ilustres e cidadãos generosos, o
Tenente Craveiro e o Tenente Pedro Joaquim, o advogado Dr.
Havia ainda o sr. Queirós (para nós o Ti Zé Queirós pelo afecto que com ele trocávamos), com uma tasca
É por isso que, excepção feita à Libânia, afectuosamente celebrada em todas as reuniões de sexagenários para cima e com a primeira geração de fregueses já praticamente extinta, só recordamos os condiscípulos. Mas dela e das primícias que nos levou persiste a ternura de afagos com desconto para estudante e o odor a clandestinidade e permanganato.